Vem aí um ano novo. Quero acreditar. Quero acreditar que a vida não é uma intermitência da morte, a calma um intervalo no caos e na confusão. Quero acreditar na vontade das pessoas acima das estruturas que as encerram. Quero acreditar que as pessoas observam as suas habitações e não são as suas habitações que as observam. Que temos um trabalho que moldamos e não somos moldados pelo trabalho, na forma como existimos em actos palavras e omissões. Quero acreditar sem recair num num pensamento que descendo ao seu rés-do -chão me arrasta para o oriente do oriente, para um pensamento descontente, contentamento forçado. Quero acreditar que a realização pessoal não recai nas possibilidades de consumo, nos julgamentos sobre mim e acerca de mim que dele resultam implicitamente, estruturando desestruturações com efeitos objectivos.
Corremos trás de quê, afinal? Da cenoura pendurada à nossa frente que quanto mais a ansiamos mais se nos escapa, viscosa cada vez mais? Jogar sempre a cuidado, com o silêncio por trunfo soberano. É esta a fonte do misticismo em torno dos grandes líderes? Precisamente o que se desconhece deles é o que os torna fortes.
Já plantaram uma árvore, porventura? Um tributo ao planeta que nos pariu.
O socorro e a inspiração vêm das pessoas que com as frases mais simples, com os sorrisos mais descomprometidos, por vezes com silêncios, nos dizem “gosto de ti”. Porquê? Por nada, sendo este “nada” tudo. Teremos a idoneidade de responder no mesmo patamar de entendimento “eu também gosto de ti, não sei bem porquê, mas gosto”!
—–já sei, sou aborrecido——–
Tive um prof. que dizia que o mundo era de quem não tivesse medo de ser chato. A mim o Valdemorte ainda me aborreceu, diria até antes pelo contrário. Mas, pergunto eu, que importa isso? Seja “aborrecido” sempre que lhe apetecer.